Assembleia Geral, Conflitos, Conselho de Segurança, Coreia do Norte, Globalização, ONU, OTAN

Rússia e Lavrov: O Antônimo da Doutrina Trump

Kawany França Leite

Os presidentes russo, Vladimir Putin e o chinês Xi Jinping, não participaram da 72ª Assembleia Geral das Nações Unidas. A ausência relevante da  Rússia e da China, impactam pelo peso que essas potências nucleares têm no debate de assuntos cujas implicações recaem sobre grande parte do mundo. Estes são dois dos cinco membros permanentes no Conselho de Segurança.

O presidente russo, Vladimir Putin, discursou em 2005 e em 2015, mas esteve ausente das demais sessões da Assembleia Geral ao longo de mais de uma década em que ele esteve como presidente do país. O presidente chinês, Xi Jinping, discursou apenas na sessão de 2015. As duas potências têm críticas às Nações Unidas em diversos temas, em um dos principais, na área de segurança; americanos e russos divergem frontalmente em relação a como lidar com a guerra na Síria, e, entre chineses e americanos, pesa sobretudo a gestão da crise com a Coreia do Norte.

No segundo dia do Debate Geral da 72ª Assembleia Geral da ONU, a fala de Sergei Lavrov, Ministro de Relações Exteriores da Rússia, foi o antônimo da fala de Trump. O recado foi claro. Criticou “países” que querem “dominar assuntos globais e impor modelos de desenvolvimento, de acordo com seus próprios valores”, movidos pela lógica da unipolaridade, Lavrov, de forma irônica, elogiou o discurso de Trump e afirmou que ele apontou questões essenciais e que qualquer país assinaria aquelas palavras, “se a política externa dos EUA fosse conduzida precisamente por essas bases”.

Lavrov em todos os momentos, como de se esperar, defendeu e justificou a política externa russa, colocando que ela age sob os princípios de não-intervenção e soberania, apontando a contradição no outro. Em outras palavras, deixou implícito que as contradições russas seriam como reação ao comportamento contraditório do Ocidente. O mesmo discurso quando da anexação da Crimeia, quando foi apontado um precedente ocidental no caso de Kosovo.

Muitas das críticas de Lavrov foram sobre a OTAN e sua expansão ao leste, que teriam encorajado sentimentos anti-Rússia. Ele afirmou que o Ocidente estrutura sua política no princípio de “quem não está conosco, está contra nós”, alusão ao discurso de George W. Bush pós-11 de Setembro de 2001. Também alfinetou Trump, afirmando que é um ultraje usar “liberdade de expressão como desculpa para apoiar movimentos radicais que professam ideologias neonazistas”, referência aos protestos em Charlottesville. Nesse teor, defendeu o legado soviético e criticou a derrubada de estátuas dos “libertadores da Europa e heróis da Segunda Guerra Mundial”, que seria “tolerada pela Europa civilizada”.

O teor geral foi o de defesa do multilateralismo e da globalização. Nos casos específicos, a defesa dos interesses russos e a crítica do que é visto pela Rússia como ações unilaterais dos EUA. As sanções dos EUA ao Irã seriam ilegítimas e minariam o acordo com o país; o fracasso de sanções unilaterais poderia ser visto no exemplo de Cuba, apesar dos pedidos da comunidade internacional; instigar problemas em nome de uma “suposta democratização” da Venezuela, afirmando que em qualquer conflito interno a comunidade internacional deve focar seus esforços em reconciliação; esse seria também o elemento para solução de questões como o Iêmen.

Sobre o Oriente Médio, Lavrov colocou que o problema do extremismo disseminado e das ondas de refugiados é causado pelas intervenções unilaterais e ações agressivas do Ocidente, “ações aventureiras para mudança de regimes considerados indesejados”. Citou especialmente Líbia e Síria, tema em que comentou as conversas de paz em Astana. Além disso, Lavrov afirmou que a luta contra o Daesh é importante, mas também deve ser a luta contra a al-Nusra, que por “alguma razão é tolerado pelos EUA e seus aliados”; a al-Nusra é o nome anterior do Fateh al-Sham, considerado o braço sírio da al-Qaeda. Lavrov também colocou a Rússia como favorável ao diálogo entre Israel e Palestina, agradeceu os esforços egípcios e declarou apoio à Iniciativa Árabe para a Paz.

Sobre a Coreia do Norte, Lavrov “condenou absolutamente” as “aventuras com mísseis nucleares” do regime, que violam sanções da ONU, mas também a “histeria militarista”, colocando que não há caminho senão a negociação. Em suma, Lavrov defende, em todos os tópicos, posturas multilaterais. Sua postura não nega contradições, se defende apontando que ela se contradiz pois o seu adversário o faz primeiro; o que, talvez, não tenha diferença. Seu encerramento focou em melhoria da governança global, o tipo de expressão que não é apropriadamente compreendida e causa calafrios nos nacionalistas adeptos de Trump. Lavrov colocou a questão até em escala da humanidade: “É óbvio que, no futuro, o mundo irá enfrentar uma nova gama de desafios de longo-prazo afetando nossa civilização. Nós não temos direito de gastar nossa energia, tempo e esforços em jogos geopolíticos. Isso exige uma abordagem coletiva, não unilateral”. Uma abordagem paradoxal, já que vem de alguém que domina, como poucos, o jogo geopolítico.

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