Comunismo, Império, Professor Diego Pautasso, Retrospectiva Histórica, Revolução Russa, União Soviética

100 anos da Revolução Russa: um olhar sobre o ‘Século Soviético’ e seus efeitos no Brasil

Kawany França Leite

A Revolução de 27 de Fevereiro foi a primeira fase da Revolução Russa de 1917. Os movimentos daquele ano transformaram a Rússia e o mundo, e desde então têm repercutido intensamente também no Brasil.

O ano de 1917 foi atípico na História da Rússia. Então, o país que vivia sob a monarquia do Czar Nicolau II terminou radicalmente transformado, influenciado por uma república socialista implantada por Vladimir Lenin e seus seguidores, entre os quais, Josef Stalin.

No plano externo, a Rússia se via às voltas com a participação na Primeira Guerra Mundial. E, no plano interno, o país mudou de regime e de nome: o antigo Império Russo deu lugar à URSS, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, ou simplesmente, União Soviética.

A Revolução Comunista de 1917 foi realizada em duas etapas: a primeira em fevereiro daquele ano (ou março, conforme o calendário gregoriano), e a segunda, em outubro (ou novembro, também de acordo com o calendário gregoriano).

Na primeira fase, a do início do ano, a pretensão era a de substituir o governo autocrático de Nicolau Segundo por um regime mais liberal, comandado pelo Príncipe Georguy Livov e pelo Ministro da Defesa Aleksander Kerensky. O objetivo foi alcançado porém Kerensky ficou pouco tempo no poder, sendo afastado (na segunda fase da Revolução) por Lenin e seus seguidores.

Para o professor de Relações Internacionais Diego Pautasso, da Universidade do Vale dos Sinos e do Colégio Militar de Porto Alegre, RS, o movimento de 1917 acentuou as inúmeras contradições que havia na Rússia. Especialista em História Russa, Diego Pautasso explica o que representou para a Rússia a primeira fase da Revolução Comunista:

“Esse primeiro movimento refletiu o acúmulo de contradições na Rússia. Do ponto de vista estrutural, o rápido desenvolvimento do capitalismo nas cidades tencionava acabar com as estruturas agrárias (feudais) e políticas (czaristas) arcaicas. Do ponto de vista conjuntural, a Primeira Guerra aprofundou os conflitos em função do desabastecimento, de reveses militares e divergências políticas. Trata-se de um período de transição em que o velho já morreu mas o novo ainda não tem forças para se estabelecer.”

Para Pautasso, o que se deu entre o início e o final do ano de 1917 na Rússia foi um período de transição até que o movimento liderado por Lenin se tornasse vitorioso:

“Esse período representa uma transição após o fim do czarismo. Um intervalo de conflito entre o Governo Provisório da Duma e o Soviete de Petrogrado para forjar outro ordenamento político (hegemônico) em meio à desorganização econômica e institucional. Há uma dualidade de poderes no país e uma crise política e paralisia institucional. Enquanto a Duma sob a liderança de Kerensky realiza reformas e recrudesce a repressão, os sovietes são atravessados por disputas políticas intestinas, mas crescentemente sob liderança bolchevique. O caos e a radicalização tornaram o Governo Provisório insustentável.”

Mas o que, efetivamente, representou para a Rússia a queda do Império e sua subsequente substituição por uma República de linha esquerdista? O especialista Pautasso responde:

“Imediatamente, representou a superação das estruturas feudais com a reforma agrária, a saída da guerra mundial, a estatização das fábricas, a autodeterminação dos povos não russos do antigo Império, entre outras medidas. Mas a questão central foi o conjunto de ações que norteou a primeira experiência socialista da humanidade e converteu a URSS numa superpotência – não obstante as contradições que levaram ao seu colapso entre 1989 e 1991.”

Pautasso acrescenta que, “a experiência soviética teve repercussão no mundo todo. Impactou a formação dos Partidos Comunistas em todos os países, influenciou todas as lutas reivindicatórias e revolucionárias, moldou a Guerra Fria e a formação da noção de cidadania a partir de um conjunto de direitos (educação, saúde, moradia, trabalho, entre outros, como responsabilidade do poder público)”.

E no Brasil; “A formação do Partido Comunista, as greves, a luta por direitos foram inspiradas nas conquistas conseguidas na URSS”, conclui Diego Pautasso.

“Quanto a outros movimentos, como o próprio regime militar, eles se deram como oposição a esta experiência. Em suma, como destaca Domenico Losurdo [filósofo italiano de formação marxista], o movimento comunista, referenciado na experiência soviética, teve papel central na luta contra as três grandes discriminações do século XX: a racial, a de gênero e a de classe, bem como na construção dos Estados de bem-estar social.”

 

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